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A agenda presidencial e seus (des)encontros
Era dia da Parada Militar no Eixão Sul e a comitiva já atrasada, ao sair do Palácio da Alvorada se deparou com dois ônibus lotados de gaúchos que haviam sidos barrados pela Guarda. Nosso presidente pediu que parasse o carro, desceu e, em meio a aplausos e aclamações da gauchada acabou por encontrar o líder da caravana, o então governador do RS, Leonel Brizola.
- “Senhor Presidente, pensei em mostrar o Palácio aos meus companheiros de viagem, mas me parece um tanto difícil agora!”
Juscelino, com um grande sorriso logo respondeu olhando para todos:
- “A casa é dos senhores. Sinto não poder ficar para recebê-los. Tenho que presidir o desfile que começa agora.”
Voltando sua atenção ao governador, perguntou:
- “E por que não veio almoçar comigo?”
Brizola explicou-se dizendo que havia combinado com seus companheiros de almoçarem juntos e então fizeram um grande pic-nic, em plena Praça dos Três Poderes, com as caixinhas de lanche que receberam da companhia aérea que os trouxe.
Juscelino então o convidou a voltar à noite e despediu-se de Brizola em meio a outras incontáveis mãos querendo cumprimentá-lo. Finalmente chegou ao carro, mas poucos metros depois, nova parada. Era o arcebispo D.Vicente Scherer.
Quantas vezes mais pararam não se contou, mas parece que já era um tanto difícil cumprir horários com rigor. Ao menos para um homem do povo.
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Ainda admirado daqui a cem anos.
JK abordou Oscar Niemeyer (convidado para ser o grande arquiteto da nova capital) da seguinte forma:
- “Vou lhe dar a mesma oportunidade que Júlio II proporcionou a Michelangelo, ao pedir-lhe que fizesse seu túmulo.”
Niemeyer achou graça, mas não deixou de pensar na semelhança entre as situações. Em poucos dias o projeto estava entregue. Estaria naqueles papéis o futuro Palácio da Alvorada. Juscelino olhou, examinou e reconheceu a beleza da concepção artística, mas ainda assim disparou:
- “O que eu quero, Niemeyer, é um palácio que, daqui a cem anos, ainda seja admirado.”
No dia seguinte, o Presidente Juscelino Kubitschek tinha em sua mesa o projeto final que foi prontamente e integralmente aprovado. Sua construção teve início imediato e terminou em 18 meses.
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Pra japonês ver.
Ainda no início da construção de Brasília, Israel Pinheiro, então presidente da NOVACAP a convite direto de JK, começava a pensar na necessidade de criar uma infraestrutura agrícola em torno da cidade, para fornecimento alimentar. Sendo assim, convidou uma missão japonesa a vir ao Brasil e estudar a possibilidade de um projeto agrícola na Nova Capital.
Em um grupo extremamente organizado, chegaram os japoneses. Ouviam tudo, mas apenas um deles falava. Israel Pinheiro e o grupo saíram em uma caminhoneta pelos caminhos ainda virgens nos arredores de Brasília. Enquanto levantavam poeira vermelha em meio à vastidão do cerrado, Israel advogava em causa própria em nome de uma grande experiência agrícola.
Foram de um lado para o outro e os japoneses nada. Já irritado, Israel Pinheiro indagou:
- Então, os senhores não têm nada a dizer?
- Temos sim senhor. Terra ruim, muito ruim, né?
- E se fosse boa eu ia chamar japonês? Ia?!
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Primeiros aqui, primeiros daqui.
É impossível falar da construção de Brasília sem falar de um pioneirismo que possibilitou muitas histórias do início e da construção de Brasília. Algumas verdadeiras e outras não, mas todas muito interessantes.
Como não poderia deixar de ser, Brasília teve sua primeira escola – com algumas aulas ao ar livre, o primeiro hospital, a primeira farmácia, o primeiro hotel, o primeiro bar... Ah, o primeiro bar merece destaque. Seu nome era Bar Maracangalha e tudo o que se ouvia era: “eu vou pra Maracangalha eu vou...”
Outro primeiro que não poderia deixar de ser falado, foi o primeiro casamento. Com uma leve brisa e pássaros cantando na manhã ensolarada do dia 17 de março de 1957, casaram-se o Sr. José Vitório da Silva e a Sr.ª Generina Maria do Santos. Talvez não tenha sido numa manhã ensolarada – afinal, março é um mês de chuva –, mas assim foi contado.
Mas uma história que não pode mesmo ser esquecida é a do nascimento do pequeno Brasílio. Pequeno na época, pois hoje já deve ser um quarentão. Enfim, em uma noite daquelas de chuva, onde tudo o que você faz é esperar dormir e acordar no dia seguinte, uma voz gritava por um médico. E foi aquele agito, aquele corre-corre e aquela confusão toda. Aparece o médico, entra no quarto e aquele povaréu do lado de fora querendo ouvir, saber e espalhar notícia da primeira criança nascida em Brasília. Quando todos já estavam calmos e muitos nem ali estavam mais, soube-se que era um menino. E tamanha foi a festa, que Brasílio Franklin Queiroz foi batizado pelo próprio Presidente Juscelino Kubtischek.
O primeiro parto feito aqui, o primeiro menino daqui.
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Sou candango!
No início foi uma discussão se o termo para os nascidos em Brasília seria brasilenses ou brasilianos, mas nenhum deles caiu no gosto popular que só “o uso” poderia decretar vencedor.
E acabou que se quem nasce no Rio é carioca, quem nasce no Espírito Santo é capixaba e quem nasce no Rio Grande do Sul é gaúcho, quem nasce em Brasília só poderia ser candango. Candango? Mas o que é isso? Palavra que veio da áfrica e indicava como os nativos se referiam aos portugueses. É uma variação de candongo, palavra do idioma Quimbundo. E fica mais complicado. Pequeno benzinho, do reino de Angola, pequeno angolês, adulação, caçoada, termo depreciativo com o qual os escravos se referiam aos lusos e sinônimo de cafucu (mistura de cafuzo, negro e mameluco). Apenas nos tempos mais próximos à construção de Brasília virou um termo generalizador para todos os emigrantes que tentavam a vida em lugares diferentesl, ou seja, pau-de-arara.
Hoje, candango é o mesmo que herói. Assim como os pracinhas que antes eram diminuídos e hoje são donos de medalhas, os primeiros candangos tornaram possível a nova capital.
Esses primeiros habitantes de Brasília deixaram um legado para que hoje, quem nascer aqui poder dizer com orgulho: “sou candango!”
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